Importação de fertilizantes do Brasil: recorde de 45 Mt e 85% de dependência
A importação de fertilizantes do Brasil chegou ao recorde de 45,5 milhões de toneladas em 2025, ante 44,3 Mt em 2024, segundo a Conab. Cerca de 85% do fertilizante usado na agricultura brasileira vem de fora, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), e no potássio a fatia fica perto de 95%. O Brasil é um dos maiores exportadores agrícolas do mundo e um dos maiores importadores de fertilizantes, e o segundo fato é o ponto fraco do primeiro: a produtividade de soja, milho, cana e café depende de nitrogênio, fósforo e potássio extraídos ou fabricados sobretudo na Rússia, na China, no Canadá, no Oriente Médio, no Norte da África e na Nigéria.
O fechamento de Ormuz em 2026 atingiu o Brasil mais pelo preço do que pelo volume. A exposição direta do país ao estreito na ureia é menor que a média mundial: o Catar forneceu 13% dos 7,7 Mt de ureia importados em 2025, enquanto os maiores fornecedores, Nigéria e Rússia, embarcam fora do Golfo. Mas a remarcação mundial de preços chegou aos portos brasileiros em semanas: o Itaú BBA registrou a ureia a US$ 710 por tonelada no porto brasileiro em abril de 2026, alta de 50% em 30 dias. Em março, o Ministério da Agricultura alertou em notas técnicas para um risco elevadíssimo de desabastecimento e alta de preços na safra 2026/27, incluindo um possível déficit de 1 a 3 Mt de fertilizantes fosfatados.
Números-chave
| Métrica | Valor | Fonte | Data |
|---|---|---|---|
| Importação de fertilizantes | 45,5 Mt | Conab | 2025 |
| Importação de fertilizantes no ano anterior | 44,3 Mt | Conab | 2024 |
| Parcela do uso de fertilizantes importada | 85% | ANDA | 2026-03 |
| Fatia da Rússia nas importações de fertilizantes | 25,9% | MDIC | 2025 |
| Importação de ureia | 7,7 Mt | Secex | 2025 |
| Fatia do Catar na importação de ureia | 13% | Secex | 2025 |
| Preço da ureia no porto brasileiro | US$ 710/t | Itaú BBA | 2026-04 |
| Produção nacional de fertilizantes | ~7,2 Mt | Ministério da Agricultura via Argus | 2025 |
Como funciona a dependência brasileira de fertilizantes
O Brasil depende de importação para cada um dos três nutrientes principais, de formas diferentes. Nitrogênio: a ureia veio de Nigéria (23%), Rússia (17%), Omã (16%), Catar (13%) e Argélia (9%) em 2025, segundo a Secex; o sulfato de amônio, em boa parte da China, ganhou espaço por ser mais barato por tonelada. Veja ureia e fertilizantes nitrogenados. Fósforo: o Brasil extrai algum fosfato e produz MAP e superfosfato simples, mas não o bastante, e importa fosfatados prontos de Marrocos, Arábia Saudita, Rússia e China. Veja reservas de fosfato do Marrocos. Potássio: a única mina nacional, Taquari-Vassouras, em Sergipe, produz uma fração da demanda; o resto vem de Canadá, Rússia e Belarus. Veja potássio.
A Rússia é o maior fornecedor isolado somando todos os produtos, com 25,9% das importações em 2025 segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e a China é a terceira. O calendário de compras concentra o risco: a maior parte do fertilizante da safra principal de soja é comprada entre o primeiro e o terceiro trimestre e aplicada a partir de setembro.
Por que essa dependência existe
A agricultura brasileira cresceu em solos tropicais naturalmente pobres em fósforo e potássio, então a produtividade depende de adubação pesada. A produção nacional não acompanhou: o gás para nitrogenados era caro, a Petrobras fechou ou arrendou suas fábricas de nitrogenados no fim dos anos 2010, e as maiores jazidas de potássio, no Amazonas, estão travadas por disputas de licenciamento e de consulta indígena. Os próprios documentos de planejamento do governo estimam o custo brasileiro de produção de ureia em cerca de US$ 280 por tonelada, contra US$ 48 na Nigéria e US$ 58 na Rússia.
Riscos e cenários de disrupção
Os casos de referência são 2022 e 2026. Em 2022, o medo de sanções sobre Rússia e Belarus levou o cloreto de potássio no Brasil de menos de US$ 300 para mais de US$ 1.200 por tonelada, segundo a StoneX, e deu origem ao Plano Nacional de Fertilizantes. Em 2026, o fechamento de Ormuz e as restrições de exportação da China elevaram ao mesmo tempo os preços da ureia e dos fosfatados. A Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) apurou que menos de 45% do fertilizante necessário para a safra 2026/27 tinha sido comprado até o fim de junho de 2026, o que deixa a colheita exposta a novas altas.
Os riscos estruturais continuam: concentração na Rússia, dependência da política de exportação chinesa, o calendário de compras e a logística de receber 45 Mt por ano por um punhado de portos.
Esforços de diversificação
- Plano Nacional de Fertilizantes (PNF 2050). Mira reduzir a dependência externa de cerca de 85% para 45% a 50% até 2050; nos primeiros anos, os números não mostraram avanço.
- Retomada dos nitrogenados. A Petrobras retomou a produção de fertilizantes nitrogenados nas fábricas de Sergipe e da Bahia na virada para 2026.
- Nova capacidade. Dados do Ministério da Agricultura compilados pela Argus apontam cerca de 9,8 Mt de nova produção anual até 2030, contra uns 7,2 Mt produzidos em 2025.
- Projetos de potássio. O projeto Autazes, no Amazonas, da Brazil Potash, segue alvo de disputas judiciais.
- Troca de produtos. Em 2025 os compradores migraram para produtos de menor concentração, como sulfato de amônio e superfosfato simples, o que aumentou a tonelagem sem aumentar os nutrientes.
Incidentes históricos
| Data | Evento | Impacto observado | Fonte |
|---|---|---|---|
| 2026-06 | Menos de 45% do fertilizante da safra 2026/27 comprado | Produtores expostos a novas altas antes do plantio | CNA via eixos |
| 2026-04 | Ureia chega a US$ 710/t nos portos brasileiros | Alta de 50% em 30 dias | Itaú BBA via Gazeta do Povo |
| 2026-03 | Ministério da Agricultura alerta para risco de desabastecimento na safra 2026/27 | Possível déficit de 1 a 3 Mt de fosfatados, até 20% da demanda | Ministério da Agricultura via Gazeta do Povo |
| 2025 | Importação recorde de 45,5 Mt | Ureia cai 7%, sulfato de amônio sobe 28% | Conab; StoneX |
| 2022-03 | Rússia invade a Ucrânia; medo de sanções sobre o potássio russo e bielorrusso | Cloreto de potássio sai de menos de US$ 300 para mais de US$ 1.200/t; lançamento do Plano Nacional de Fertilizantes | StoneX; Governo federal |
O que monitorar
- Dados mensais de importação da Secex e da Conab por produto e origem.
- Ritmo de compras para a safra 2026/27, acompanhado pela CNA e por consultorias.
- Preços da ureia e do MAP nos portos brasileiros.
- Reabertura de Ormuz e política de exportação chinesa, as duas variáveis externas que moveram os preços em 2026.
- Marcos dos projetos do PNF e a produção de nitrogenados da Petrobras.
Perguntas frequentes
Quanto fertilizante o Brasil importa? Um recorde de 45,5 milhões de toneladas em 2025, segundo a Conab, ante 44,3 Mt em 2024. Cerca de 85% do fertilizante usado na agricultura brasileira é importado, segundo a ANDA.
De onde o Brasil importa fertilizantes? A Rússia é o maior fornecedor, com 25,9% das importações em 2025, seguida de outros fornecedores como China, Canadá, Marrocos, Nigéria e Oriente Médio. Na ureia, as principais origens foram Nigéria, Rússia, Omã, Catar e Argélia. O potássio vem principalmente de Canadá, Rússia e Belarus.
Como o fechamento do estreito de Ormuz afetou o Brasil? Principalmente pelo preço. O Catar forneceu só 13% da ureia brasileira em 2025, mas o fechamento elevou os preços mundiais, e a ureia chegou a US$ 710 por tonelada nos portos brasileiros em abril de 2026, alta de 50% em um mês. O Ministério da Agricultura alertou para risco de falta de fosfatados na safra 2026/27.
O que é o Plano Nacional de Fertilizantes? Um plano federal lançado em 2022 para reduzir a dependência brasileira de fertilizante importado de cerca de 85% para 45% a 50% até 2050, com nova produção nacional de nitrogênio, fósforo e potássio.
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