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Canal de Suez: fluxo de petróleo, receita e o desvio de 2026

Atualizado 21 de set. de 2026 · André Nalepa Abbud

4,9 mb/d
Fluxo de petróleo, Canal de Suez e SUMED
EIA · em 2025-H1
8,8 mb/d
Fluxo de petróleo antes da crise do Mar Vermelho
EIA · em 2023
US$ 9,4 bilhões
Receita anual recorde
Autoridade do Canal de Suez · em 2023-06
2,5 mb/d
Capacidade do oleoduto SUMED
EIA · em static
9.602
Travessias de janeiro a agosto
Autoridade do Canal de Suez · em 2026-08
US$ 1,26 bilhão
Receita no segundo trimestre
CAPMAS · em 2026-Q2

O canal de Suez transportou cerca de 4,9 milhões de barris por dia de cru e derivados no primeiro semestre de 2025, somando o canal e o oleoduto SUMED que corre em paralelo, segundo a EIA. É pouco mais da metade dos 8,8 mb/d de 2023, o último ano cheio antes de os ataques houthis na entrada sul do Mar Vermelho empurrarem a maior parte do comércio Ásia-Europa para a volta pela África. O canal em si nunca fechou nesta crise. Tem 193 km, nenhuma eclusa, liga o Mediterrâneo em Port Said ao Mar Vermelho em Suez e corta cerca de duas semanas de uma viagem entre o Golfo e o noroeste europeu.

O problema do canal é estar na ponta do gargalo de outro país. Todo navio que chega pelo sul passa antes pelo estreito de Bab el-Mandeb, e desde novembro de 2023 é esse estreito que decide quanto tráfego Suez recebe. A receita da Autoridade do Canal de Suez teve pico de US$ 9,4 bilhões no exercício 2022/23 e desabou em 2024; em 2026 vinha se recuperando com outra composição de carga, porque petroleiros carregando cru saudita em Yanbu usavam o canal para chegar à Europa enquanto o estreito de Ormuz seguia fechado. Em meados de setembro de 2026 essa alimentação também parou: ataques de drones fecharam o oleoduto Leste-Oeste até Yanbu em 10 e 11 de setembro.

Números-chave

Métrica Valor Fonte Data
Fluxo de petróleo, Canal de Suez e SUMED 4,9 mb/d EIA 2025-H1
Fluxo de petróleo antes da crise do Mar Vermelho 8,8 mb/d EIA 2023
Participação no comércio marítimo mundial de petróleo ~6% EIA 2025-H1
Capacidade do oleoduto SUMED 2,5 mb/d EIA estático
Receita recorde de um exercício US$ 9,4 bilhões Autoridade do Canal de Suez 2023-06
Travessias no exercício recorde ~25.800 Autoridade do Canal de Suez 2023-06
Receita no segundo trimestre US$ 1,26 bilhão CAPMAS 2026-Q2
Travessias de janeiro a agosto 9.602 Autoridade do Canal de Suez 2026-08
Comprimento 193,3 km Autoridade do Canal de Suez estático
Calado máximo carregado 20,1 m Autoridade do Canal de Suez estático

O que passa pelo canal de Suez

O petróleo é a carga mais visível, não a de maior valor. Em anos normais o canal movimentava cerca de um décimo do comércio marítimo mundial, a maior parte em contêineres no circuito Ásia-Europa, ao lado de petroleiros, graneleiros, navios de veículos e metaneiros. A série da EIA mostra a trajetória do petróleo: 5,4 mb/d em 2020, 7,3 mb/d em 2022, quando a Europa trocou barris russos por cargas do Oriente Médio e da Ásia, pico de 8,8 mb/d em 2023, depois 4,8 mb/d em 2024 e 4,9 mb/d no primeiro semestre de 2025.

O canal são dois sistemas. A hidrovia recebe navios nos dois sentidos. O oleoduto SUMED, com 2,5 mb/d de capacidade entre Ain Sukhna, no Mar Vermelho, e Sidi Kerir, no Mediterrâneo, recebe o cru de petroleiros grandes demais para cruzar o canal carregados, que aliviam carga em Ain Sukhna e recarregam em Sidi Kerir. A corretora Banchero Costa apurou que 11,2% das exportações sauditas de cru nos cinco primeiros meses de 2025 foram para Ain Sukhna alimentar o SUMED, quase tudo com destino à Europa.

Os contêineres são a parte que não voltou. Maersk, Hapag-Lloyd e CMA CGM começaram a testar a rota de novo no início de 2026, três meses depois do último ataque houthi da campanha de 2023 a 2025, e redirecionaram tudo para o Cabo outra vez em março de 2026, quando começou a guerra com o Irã, segundo a Reuters. O tráfego de contêineres seguiu cerca de quatro quintos abaixo do nível anterior à crise até meados de 2026.

Quem depende do canal de Suez

O Egito, antes de todos. A receita do canal é uma das quatro principais fontes de divisas do país, ao lado do turismo, das remessas de trabalhadores e das exportações de mercadorias, e a queda de US$ 9,4 bilhões em 2022/23 para cerca de US$ 4 bilhões em 2024 pressionou diretamente a libra egípcia. A autoridade recorreu a descontos e abatimentos para trazer as armadoras de volta. A receita chegou a US$ 1,26 bilhão no segundo trimestre de 2026, 13% acima do primeiro, segundo o CAPMAS, e a autoridade registrou 1.358 travessias em agosto de 2026, 27% mais que um ano antes.

A Europa depende do canal por prazo, não por volume. A EIA calcula uma viagem do Mar da Arábia aos Países Baixos em 19 dias via Suez contra 34 contornando a África. Quando o canal é evitado, refinarias e importadores europeus pagam em frete, estoque e tempo, não em barris faltando.

A Arábia Saudita virou a maior usuária isolada em 2026. Com Ormuz fechado, a Aramco levou cru para oeste pelo oleoduto Leste-Oeste até Yanbu, e Suez e o SUMED eram as únicas formas de chegar ao Mediterrâneo sem passar pelo Bab el-Mandeb. Veja exportações de petróleo da Arábia Saudita.

Rotas alternativas e contornos

Cabo da Boa Esperança. A única alternativa real para o tráfego entre Ásia e Europa, com 10 a 14 dias a mais. Absorveu a maior parte do tráfego de contêineres a partir de 2024. Veja Cabo da Boa Esperança.

SUMED. Alternativa ao canal só para cru, e só para cargas que já estão dentro do Mar Vermelho. Move até 2,5 mb/d e não ajuda um navio que vem do Golfo de Áden.

Eilat-Ashkelon. O oleoduto israelense do Mar Vermelho ao Mediterrâneo não está disponível comercialmente; o porto de Eilat parou de operar durante a campanha houthi.

Terra e ferrovia. O trem China-Europa e o modal mar-ar via Dubai levam carga de alto valor, mas numa escala de milhares de contêineres, não dos milhões que o canal movimentava.

A aritmética é incomum: o canal tem uma alternativa que funciona, e o custo de usá-la é tempo. É por isso que as disrupções em Suez aparecem no frete e no seguro antes de aparecer no preço das commodities.

Incidentes históricos

Data Evento Impacto observado Fonte
2026-09-11 Arábia Saudita fecha o oleoduto Leste-Oeste até Yanbu após ataques de drones A principal fonte de petroleiros no norte do Mar Vermelho para; nenhum carregamento em Yanbu depois de 11 de setembro Kpler; Ministério da Energia saudita
2026-08 1.358 travessias e US$ 567 milhões de receita no mês Travessias 27% e receita 57% acima do ano anterior, puxadas por petroleiros Autoridade do Canal de Suez
2026-03 Guerra com o Irã fecha Ormuz; Maersk, Hapag-Lloyd e CMA CGM voltam a contornar o Cabo Retorno dos contêineres revertido; cru saudita desviado a Yanbu eleva o tráfego de petroleiros Reuters
2026-02-08 Autoridade informa US$ 449 milhões de 1.315 travessias desde 1º de janeiro Primeira recuperação sustentada desde 2023; Maersk testa a rota com o serviço ME11 Autoridade do Canal de Suez
2023-11-19 Houthis apreendem o Galaxy Leader e abrem a campanha no Mar Vermelho Petróleo pelo canal cai de 8,8 mb/d em 2023 para 4,8 mb/d em 2024; receita cai mais da metade EIA; Autoridade do Canal de Suez
2021-03-23 O Ever Given encalha e bloqueia o canal Tráfego parado por seis dias; a autoridade estima perda de US$ 12 milhões a US$ 15 milhões por dia para o Egito Autoridade do Canal de Suez via AFP
2015-08-06 Inauguração do Novo Canal de Suez, com canal paralelo de 35 km Tráfego em mão dupla em parte da rota; capacidade diária sobe para 97 navios Autoridade do Canal de Suez
1967-06 a 1975-06 Canal fechado após a Guerra dos Seis Dias Oito anos de tráfego contornando a África; 15 navios presos no Grande Lago Amargo Autoridade do Canal de Suez
1956-10 a 1957-04 Fechamento durante a Crise de Suez, após a nacionalização O Egito afunda navios no canal; a Europa enfrenta racionamento de combustível Autoridade do Canal de Suez

Ativos e empresas expostos

Estado egípcio. A Autoridade do Canal de Suez, a operadora do SUMED Arab Petroleum Pipelines Company (da estatal egípcia EGPC com Saudi Aramco, ADNOC e sócios kuwaitianos e catarianos), os portos de Port Said East e Ain Sukhna e a Zona Econômica do Canal de Suez.

Armadoras de contêineres. Maersk, MSC, CMA CGM, Hapag-Lloyd, COSCO e Evergreen definem a base de receita do canal. A escolha de malha delas, não a capacidade do canal, determina os volumes.

Armadores de petroleiros e tradings. Donos de Suezmax e Aframax nos tráfegos do norte do Mar Vermelho e tradings que levam cru saudita e iraquiano ao Mediterrâneo. Quando o canal é evitado, viagens mais longas elevam tonelada-milha e fretes para esses mesmos armadores.

Importadores europeus. Refinarias na Itália, Espanha, França e Grécia que recebiam cru do Golfo via SUMED, e os terminais de GNL do Mediterrâneo que recebem cargas do Golfo pela rota curta. Apenas descritivo: a enciclopédia não publica recomendações.

O que monitorar

  • Travessias e receita mensais da Autoridade do Canal de Suez e do CAPMAS: o sinal público mais claro de que as armadoras confiam na rota. A meta da autoridade para 2026 era de cerca de US$ 5,8 bilhões a US$ 6 bilhões.
  • Oleoduto Leste-Oeste e carregamentos em Yanbu: comunicados da Aramco e do Ministério da Energia saudita, mais dados de Kpler e Vortexa. Sem Yanbu, o tráfego de petroleiros no norte do Mar Vermelho recua.
  • Bab el-Mandeb: o embargo houthi à navegação saudita e o controle da ilha de Perim definem quanto tráfego chega ao canal pelo sul.
  • Anúncios de malha das armadoras: a volta de qualquer grande serviço Ásia-Europa ao canal é o evento que recuperaria a maior parte da receita perdida.
  • Dados trimestrais de gargalos da EIA: volumes de petróleo por Suez e SUMED a cada trimestre.

Perguntas frequentes

Quanto petróleo passa pelo canal de Suez? Cerca de 4,9 milhões de barris por dia no primeiro semestre de 2025, somando o canal e o oleoduto SUMED, segundo a EIA. Em 2023 eram 8,8 mb/d. A queda veio dos ataques houthis no Bab el-Mandeb, que empurraram os petroleiros para a volta pela África, e não de algo dentro do canal.

O canal de Suez está aberto? Sim. Ficou aberto durante todas as crises do Mar Vermelho e de Ormuz entre 2023 e 2026. O tráfego é menor porque os navios precisam chegar a ele pelo Mar Vermelho: a maioria das armadoras de contêineres ainda contorna o Cabo da Boa Esperança, e o tráfego de petroleiros em 2026 dependeu das exportações sauditas por Yanbu, que pararam depois do fechamento do oleoduto Leste-Oeste em 11 de setembro de 2026.

Quanto o Egito ganha com o canal de Suez? O recorde foi de US$ 9,4 bilhões no exercício 2022/23. A receita caiu para cerca de US$ 4 bilhões em 2024 e vem se recuperando: a autoridade informou US$ 4,67 bilhões em 2025/26, e o CAPMAS registrou US$ 1,26 bilhão só no segundo trimestre de 2026.

O que é o oleoduto SUMED? Um oleoduto de cru de 2,5 mb/d que atravessa o Egito de Ain Sukhna, no Mar Vermelho, a Sidi Kerir, no Mediterrâneo. Permite que petroleiros muito grandes, que não cruzam o canal carregados, descarreguem de um lado e recarreguem do outro. É alternativa ao canal, não ao Bab el-Mandeb.

Por que nem todos os navios voltaram a usar o canal de Suez? Porque o risco está na entrada sul do Mar Vermelho, não no canal. As armadoras de contêineres refizeram suas malhas em torno do Cabo em 2024, e voltar exige meses de reprogramação. A guerra de 2026 com o Irã, os novos ataques houthis e o embargo à navegação saudita não deram motivo para essa volta.

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